DE 7 DE SETEMBRO A 15 DE NOVEMBRO
O enfraquecimento da Monarquia Católica e o golpe republicano de 1889
Quando estudamos a queda do Império brasileiro, não devemos olhar somente para a manhã de 15 de novembro de 1889. A derrubada da Monarquia foi o desfecho de um processo muito mais longo de ruptura com a antiga ordem política e religiosa que ligava o Brasil à Monarquia portuguesa.
Antes da Independência, encontramos figuras como Dona Maria I e Dom João VI, monarcas formados dentro de uma concepção tradicional de realeza na qual a Fé Católica ocupava posição central na vida pública.
Dona Maria I ficou conhecida por sua profunda religiosidade. Dom João VI, por sua vez, trouxe a Corte portuguesa para o Brasil em 1808 e, em 1815, o Brasil deixou formalmente a antiga condição colonial e foi elevado à dignidade de Reino, formando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
Este fato é fundamental.
DONA MARIA I, DOM JOÃO E A AMEAÇA NAPOLEÔNICA
Aqui precisamos recordar um período decisivo da história portuguesa.
Dona Maria I era casada com Dom Pedro III, pai de Dom João VI. Dom Pedro III morreu em 1786, antes da ascensão política de Napoleão Bonaparte e, portanto, não participou das guerras contra ele.
A resistência à pressão napoleônica pertence ao período posterior, durante o reinado de Dona Maria I e principalmente durante a regência de seu filho, o futuro Dom João VI.
Dom João assumiu progressivamente a direção do governo devido à enfermidade de sua mãe e tornou-se oficialmente príncipe regente em 1799.
Foi então que Portugal precisou sobreviver em meio a uma extraordinária disputa entre as grandes potências europeias.
De um lado estava a França revolucionária e posteriormente napoleônica.
Do outro, a Grã-Bretanha.
Portugal possuía uma posição estratégica e uma antiga aliança com os britânicos. Napoleão queria obrigar Portugal a participar do Bloqueio Continental contra a Inglaterra.
Dom João encontrou-se diante de uma situação extremamente difícil.
Era necessário negociar, ganhar tempo, acompanhar os movimentos das potências estrangeiras e impedir que a própria Monarquia portuguesa fosse capturada.
Por isso, a imagem popular de Dom João VI como um rei simplesmente fraco ou incapaz é profundamente incompleta.
Sua política possuía prudência, diplomacia e uma importante rede de informações.
Em uma Europa tomada por guerras, embaixadores, diplomatas, agentes e informantes eram fundamentais para conhecer as intenções dos governos estrangeiros.
Dom João tentou equilibrar-se diplomaticamente enquanto fosse possível.
Quando Napoleão finalmente determinou a invasão de Portugal, o príncipe tomou uma decisão extraordinária:
não permitiu que a Família Real fosse capturada.
NAPOLEÃO TOMOU LISBOA, MAS NÃO TOMOU A MONARQUIA
Em 1807, tropas francesas comandadas pelo general Junot avançaram sobre Portugal.
Mas quando chegaram a Lisboa, a Família Real já havia partido.
A Corte atravessou o Atlântico protegida por forças navais portuguesas e britânicas.
Napoleão podia ocupar território.
Mas não conseguiu capturar o príncipe regente.
Não conseguiu aprisionar a Família Real.
Não conseguiu extinguir a Monarquia portuguesa.
O centro do governo atravessou o oceano e instalou-se no Brasil.
Essa decisão demonstra uma habilidade política frequentemente desprezada quando se fala de Dom João VI.
Enquanto outras antigas dinastias europeias foram derrubadas, humilhadas ou submetidas por Napoleão, a Casa de Bragança preservou a Coroa e transferiu o centro da Monarquia para o outro lado do Atlântico.
E as consequências foram enormes.
O Brasil já havia sido elevado a Reino antes do 7 de Setembro de 1822.
Portanto, a narrativa simplificada segundo a qual o Brasil precisou simplesmente “libertar-se de Portugal para deixar de ser colônia” não apresenta toda a complexidade histórica.
1822: O PRIMEIRO GRANDE ROMPIMENTO
É dentro desse contexto que devemos analisar o 7 de Setembro.
A Independência preservou inicialmente a forma monárquica, pois Dom Pedro tornou-se imperador do Brasil. Contudo, ela rompeu a unidade política da antiga Monarquia luso-brasileira construída durante o reinado de Dom João VI.
É nesse sentido que sustentamos a seguinte interpretação:
1889 não surgiu do nada.
A República encontrou terreno depois de décadas de transformação política, religiosa e intelectual iniciadas no século XIX.
O 7 de Setembro não instaurou a República imediatamente, mas rompeu uma ordem anterior. A partir daí nasceu uma Monarquia brasileira que progressivamente enfrentaria liberalismo, conflitos religiosos, republicanismo, positivismo e crescente influência de sociedades secretas na política.
O processo culminaria 67 anos depois.
DOM PEDRO I: QUANDO O EXEMPLO DO MONARCA ENFRAQUECE A COROA
Dom Pedro I preservou oficialmente a religião católica no Império.
Entretanto, sua vida pessoal apresentou comportamentos incompatíveis com a moral católica.
Suas relações extraconjugais são historicamente conhecidas.
Isso não é uma questão secundária para uma concepção verdadeiramente católica da Monarquia.
O rei ou imperador não deve apenas administrar.
Ele deve governar pelo exemplo.
Quando um soberano de uma nação oficialmente católica contradiz publicamente em sua vida aquilo que a religião ensina, ele enfraquece moralmente a própria instituição que representa.
Um mau exemplo vindo de cima possui consequências muito maiores que o mau exemplo de um homem particular.
DOM PEDRO II E A GRAVE QUESTÃO RELIGIOSA
Durante o reinado de Dom Pedro II ocorreu um dos episódios mais graves das relações entre Igreja e Estado no Brasil imperial: a Questão Religiosa.
Bispos brasileiros enfrentaram a presença maçônica dentro de irmandades religiosas e procuraram aplicar as determinações eclesiásticas contra a Maçonaria.
Entre eles destacaram-se Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, bispo de Olinda, e Dom Antônio de Macedo Costa, bispo do Pará.
O conflito chegou ao extremo:
bispos católicos foram processados e presos pelo Estado de uma nação oficialmente católica.
Que contradição!
Um Império que professava oficialmente o catolicismo permitiu que homens da Igreja fossem encarcerados no contexto de uma disputa envolvendo a aplicação das determinações eclesiásticas contra maçons.
Aqui encontramos um dos grandes erros políticos do Segundo Reinado.
A Coroa deveria ser defensora da verdadeira religião.
Em vez disso, chegou-se a uma situação em que bispos eram tratados como criminosos.
A Monarquia brasileira começou assim a perder uma de suas maiores fortalezas: sua identificação histórica com a religião católica.
DOM PEDRO I E O EMPRÉSTIMO DOS BANQUEIROS ROTHSCHILD
Existe um fato documental que merece atenção especial quando estudamos os primeiros anos do Brasil independente:
durante o reinado de Dom Pedro I, o recém-formado Império brasileiro recebeu grandes empréstimos provenientes do mercado financeiro de Londres.
Em 5 de janeiro de 1824, Dom Pedro I autorizou oficialmente a contratação, na Europa, de um empréstimo no valor de 3 milhões de libras esterlinas.
O próprio decreto imperial justificava a operação pelas despesas consideradas necessárias à defesa, segurança e estabilidade do novo Império.
Mais significativo ainda: para garantir o pagamento do principal e dos juros, foram comprometidas receitas das alfândegas brasileiras, especialmente a Alfândega do Rio de Janeiro.
O empréstimo acabou sendo realizado em duas partes.
A primeira, de 1 milhão de libras, foi contratada com outros grupos de banqueiros.
A segunda e maior parcela, no valor de 2 milhões de libras esterlinas, foi contratada com a casa Nathan Mayer Rothschild.
Portanto, aqui não estamos diante de mera especulação.
Existe documentação oficial do Tesouro Nacional sobre a participação dos Rothschild nos empréstimos do Brasil imperial.
Há ainda uma peça histórica especialmente interessante preservada pelo Arquivo Histórico do Itamaraty.
Em 15 de novembro de 1826, N. M. Rothschild enviou uma carta dirigida a Dom Pedro I, cobrando parcelas relacionadas a um empréstimo português na Inglaterra cujo pagamento o Brasil havia assumido.
Isso demonstra documentalmente a relação financeira existente entre o governo de Dom Pedro I e a poderosa casa bancária Rothschild.
A INDEPENDÊNCIA POLÍTICA E A DEPENDÊNCIA FINANCEIRA
Existe, portanto, uma contradição histórica que merece reflexão.
Em 1822, proclamava-se a independência política.
Pouco tempo depois, o novo Império precisava recorrer aos grandes banqueiros de Londres para financiar suas necessidades.
O Brasil havia se separado politicamente de Portugal, mas começava sua existência independente assumindo importantes compromissos perante o sistema financeiro internacional.
Isso não significa, por si só, que os Rothschild tenham organizado a Independência ou controlado Dom Pedro I. Para fazer uma acusação dessa natureza seriam necessárias outras provas.
Mas aquilo que podemos afirmar com documentos é suficientemente importante:
DOM PEDRO I AUTORIZOU GRANDES EMPRÉSTIMOS EXTERNOS.
O BRASIL CONTRAIU MILHÕES DE LIBRAS EM DÍVIDAS.
A CASA NATHAN MAYER ROTHSCHILD PARTICIPOU DIRETAMENTE DESSAS OPERAÇÕES.
RECEITAS PÚBLICAS BRASILEIRAS FORAM COMPROMETIDAS COMO GARANTIA DO PAGAMENTO.
E a dependência financeira externa não terminou com Dom Pedro I.
Durante o Segundo Reinado, o Brasil continuou realizando sucessivos empréstimos no exterior. O levantamento histórico do próprio Tesouro Nacional registra 15 empréstimos externos entre 1824 e 1888, sendo grande parte intermediada pela casa Rothschild ou por seus representantes.
Assim, para compreender a transformação do Brasil no século XIX, não basta observar somente batalhas, imperadores e proclamações.
É preciso acompanhar também quem emprestava dinheiro ao Estado brasileiro, quais garantias eram oferecidas e como a dívida externa cresceu ao longo do Império.
Essa é uma parte da nossa história que merece ser conhecida.
A MAÇONARIA E A REVOLUÇÃO POLÍTICA
Não se pode estudar seriamente o século XIX brasileiro ignorando a presença da Maçonaria.
Ela aparece na trajetória de importantes personagens políticos tanto no período da Independência quanto posteriormente.
Do ponto de vista católico, a questão é ainda mais grave porque os Romanos Pontífices haviam condenado repetidamente as sociedades maçônicas.
A oposição entre os princípios católicos e maçônicos não era uma invenção brasileira.
Ela fazia parte de um conflito muito maior que atravessava a Europa e as Américas: de um lado, a antiga concepção cristã da sociedade; de outro, as ideias revolucionárias, liberais, secularizantes e posteriormente positivistas.
GUSTAVO BARROSO E A DENÚNCIA DA MAÇONARIA
É nesse ponto que merece atenção a obra de Gustavo Barroso.
Barroso foi um dos mais conhecidos escritores brasileiros a denunciar aquilo que entendia como a influência das sociedades secretas e das ideias revolucionárias sobre a história política.
Sua interpretação chama atenção para algo que uma leitura puramente escolar frequentemente deixa em segundo plano:
as revoluções não acontecem somente nas ruas ou nos quartéis. Antes de conquistar governos, ideias conquistam homens.
Quando uma elite abandona os princípios que sustentavam uma civilização, a estrutura política pode permanecer aparentemente intacta durante algum tempo.
Mas seus fundamentos já estão abalados.
No Brasil, republicanismo, liberalismo, positivismo e influência maçônica cresceram durante o século XIX.
E Dom Pedro I e II, cometeu erros que facilitaram esse avanço.
POSITIVISMO: A NOVA RELIGIÃO POLÍTICA
Outra força decisiva foi o positivismo.
Sua influência sobre setores militares brasileiros é amplamente conhecida.
Benjamin Constant tornou-se uma das figuras fundamentais desse ambiente intelectual.
Não é coincidência que a República posteriormente tenha colocado na bandeira nacional as palavras:
“ORDEM E PROGRESSO”.
A expressão possui origem positivista.
Assim, a derrubada de uma Monarquia historicamente ligada ao catolicismo foi acompanhada pela ascensão de uma filosofia que pretendia reorganizar a sociedade segundo outros fundamentos.
15 DE NOVEMBRO DE 1889: O GOLPE
Finalmente chegou o momento decisivo.
Em 15 de novembro de 1889, militares comandados pelo marechal Deodoro da Fonseca derrubaram o governo imperial.
Perguntemos:
Onde estava o plebiscito?
Onde estava a votação popular para decidir se o Brasil desejava abandonar a Monarquia?
Quando o povo brasileiro autorizou os militares a expulsarem a Família Imperial?
Não houve essa consulta.
A mudança de regime foi realizada por uma articulação político-militar.
O próprio povo não foi o protagonista da derrubada da Monarquia.
Poucos dias depois, Dom Pedro II e a Família Imperial foram obrigados a deixar o Brasil.
Uma instituição que havia governado o Brasil independente durante 67 anos caiu praticamente sem que a população tivesse participação direta na escolha do novo regime.
Isso é essencial para compreender 1889:
A REPÚBLICA BRASILEIRA NASCEU DE UM GOLPE POLÍTICO-MILITAR.
O 15 DE NOVEMBRO FOI PREPARADO POR DÉCADAS DE ENFRAQUECIMENTO
É justamente aqui que 1822 e 1889 devem ser analisados em conjunto dentro da interpretação que defendemos.
Não afirmamos que os homens reunidos em 1822 possuíam diante deles um calendário dizendo: “em 1889 haverá uma República”.
A questão é muito mais profunda.
1822 representou uma ruptura.
Depois vieram novas concessões ao liberalismo.
Vieram os maus exemplos morais no alto da sociedade.
Veio a Questão Religiosa.
Bispos foram presos.
A influência maçônica continuou presente na vida política.
O republicanismo cresceu.
O positivismo penetrou nos quartéis.
E finalmente os militares derrubaram a Monarquia.
Portanto, existe uma cadeia histórica de enfraquecimento.
1822 — ruptura da unidade monárquica luso-brasileira.
Primeiro Reinado — permanência da Monarquia, mas acompanhada de liberalismo político e graves contradições morais do soberano.
Segundo Reinado — aprofundamento das tensões entre Estado e Igreja, culminando na Questão Religiosa.
Décadas finais do Império — crescimento republicano e positivista.
1889 — golpe militar e queda da Monarquia.
UMA MONARQUIA NÃO CAI APENAS QUANDO SEUS INIMIGOS SÃO FORTES
Ela também cai quando seus próprios defensores deixam de viver os princípios que deveriam sustentá-la.
Esse talvez seja o ensinamento mais importante.
Dona Maria I e Dom João VI representam uma antiga concepção de soberania marcada pela religião católica.
Depois deles, a história brasileira entrou num processo de profundas transformações.
Dom Pedro I não ofereceu sempre o exemplo moral que deveria ser esperado de um príncipe católico.
Dom Pedro II permitiu que seu governo chegasse ao gravíssimo conflito da Questão Religiosa.
Enquanto a Monarquia enfraquecia suas próprias bases, seus adversários cresciam.
E então chegou 1889.
O BRASIL NÃO ESCOLHEU A REPÚBLICA NAS URNAS
Ela foi imposta pela mudança militar do regime.
Por isso, o 15 de Novembro não deve ser romantizado como se todo o povo brasileiro tivesse espontaneamente se levantado contra o imperador.
A realidade foi muito diferente.
A Monarquia foi derrubada.
A Família Imperial foi exilada.
O regime republicano foi instalado.
E o positivismo deixou sua inscrição até mesmo na bandeira nacional.
Quando observamos toda essa sequência, compreendemos que o golpe de 1889 não foi um raio caído de um céu azul.
Foi o resultado final de um longo enfraquecimento da ordem monárquica e de um avanço progressivo de princípios políticos estranhos à antiga concepção católica da sociedade.
Por isso, estudar 1889 exige estudar também 1822, a Maçonaria, o liberalismo, a Questão Religiosa, o positivismo e, sobretudo, os erros cometidos pelos próprios homens que deveriam ter defendido o Trono e o Altar.
Quando o Trono deixa de defender firmemente o Altar, acaba enfraquecendo a si próprio.
E quando os fundamentos de uma civilização são abandonados, seus inimigos encontram as portas abertas.
DIREITA E ESQUERDA: UMA DIVISÃO POLÍTICA MODERNA
Outra consequência da política moderna foi a consolidação de divisões ideológicas que não pertenciam à antiga concepção católica da sociedade.
As expressões “direita” e “esquerda” são anteriores à República brasileira: nasceram no contexto da Revolução Francesa de 1789.
Portanto, seria historicamente incorreto dizer que os republicanos brasileiros inventaram direita e esquerda em 1889.
Mas existe uma crítica católica tradicional importante a ser feita.
A doutrina política católica não pode ser reduzida automaticamente a nenhuma dessas duas categorias modernas.
Ao longo dos séculos XIX e XX, liberais, republicanos, socialistas, positivistas e posteriormente comunistas passaram a disputar a sociedade por meio de diferentes programas ideológicos.
Do ponto de vista católico tradicional, é possível criticar essa polarização quando ela leva o homem a acreditar que precisa escolher sua verdade exclusivamente entre dois campos políticos modernos.
A Fé Católica não nasceu da direita nem da esquerda.
Ela é muito anterior às duas.
Por isso, o católico deve julgar direita e esquerda pela doutrina católica — e não modificar a doutrina para caber em uma delas.
Lucas de Oliveira Campos
Rádio Santa Filomena — a serviço da salvação das almas