Santo Agostinho: da inquietação do coração à luz da Verdade
Poucas histórias na vida dos santos são tão grandiosas, dramáticas e profundamente humanas quanto a de Santo Agostinho de Hipona. Sua vida foi marcada por uma longa busca: buscou a felicidade nos prazeres, na glória intelectual, nas amizades, nas riquezas do pensamento e nas diversas doutrinas que encontrou pelo caminho. Mas, depois de experimentar tantas coisas, descobriu aquilo que sua alma procurava desde o princípio: Deus.
Sua história não é apenas a história de um grande bispo, teólogo e Doutor da Igreja. É também a história de uma alma que esteve perdida, que resistiu à graça, que chorou, lutou consigo mesma e, finalmente, encontrou a Verdade.
E talvez seja justamente por isso que Santo Agostinho continue falando tão profundamente ao homem de todos os tempos.
Uma infância entre a fé e o mundo
Agostinho nasceu em Tagaste, no norte da África, em 354. Seu pai, Patrício, era pagão durante boa parte da vida, enquanto sua mãe, Santa Mônica, era uma fervorosa cristã.
Desde pequeno, Mônica desejava profundamente que o filho conhecesse e amasse a Deus. Ela rezava por ele, chorava por ele e acompanhava com sofrimento os caminhos que Agostinho escolhia.
Entretanto, Agostinho possuía uma inteligência extraordinária. Desde jovem demonstrava grande talento para os estudos e para a eloquência. Seu desejo era tornar-se um grande homem, admirado por sua inteligência e por sua capacidade de falar.
Mas o coração daquele jovem estava dividido.
Ele queria a verdade, mas também queria satisfazer suas paixões. Queria conhecer a Deus, mas não queria abandonar aquilo que o afastava d'Ele.
Mais tarde, olhando para sua própria juventude, Agostinho escreveria em suas Confissões uma das frases mais conhecidas de toda a literatura cristã:
“Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!”
Ele percebeu que Deus havia estado diante dele durante toda a sua vida, mas que ele havia passado muito tempo procurando em outras coisas aquilo que somente Deus poderia oferecer.
“Fiz-me para Ti”
As primeiras páginas das Confissões já revelam o drama interior de Agostinho. Ele compreendeu que existe no homem uma inquietação que nenhuma criatura consegue satisfazer.
Por isso escreveu:
“Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”
Essa frase resume de maneira magnífica toda a sua vida.
Agostinho procurou repouso em muitos lugares. Procurou nos prazeres, nos relacionamentos, nos estudos, nas ambições e nas correntes filosóficas de seu tempo.
Mas nada conseguia preencher aquele vazio.
Quanto mais procurava a felicidade longe de Deus, mais percebia que alguma coisa faltava.
E essa experiência continua sendo profundamente atual. O homem pode possuir conhecimento, dinheiro, reconhecimento e prazer; pode ser admirado por muitos; pode alcançar aquilo que imaginou desejar durante toda a vida. E ainda assim permanecer interiormente inquieto.
Porque o coração humano foi feito para algo infinitamente maior.
Foi feito para Deus.
A queda e as paixões
Agostinho não escondeu seus pecados. Ao contrário: nas Confissões, ele os apresenta diante de Deus com uma sinceridade impressionante.
Ele fala de sua juventude, de suas paixões, de sua busca desordenada pelo prazer e da maneira como se deixou dominar pelos desejos.
Não escreve para glorificar o pecado, mas para mostrar a grandeza da misericórdia divina.
Uma das passagens mais impressionantes é aquela em que ele recorda sua dificuldade em abandonar os velhos hábitos. Agostinho queria converter-se, mas ainda se encontrava preso às suas paixões.
Foi nesse combate que pronunciou uma oração que se tornou célebre:
“Dai-me castidade e continência, mas não ainda.”
Era como se sua inteligência já reconhecesse a verdade, enquanto sua vontade ainda resistisse à graça.
Essa é uma das maiores lições de sua vida: saber o que é certo não significa necessariamente querer fazê-lo imediatamente.
A conversão é também uma batalha interior.
O longo sofrimento de Santa Mônica
Enquanto Agostinho se afastava, sua mãe continuava rezando.
Santa Mônica sofreu durante anos.
Ela viu o filho abandonar a fé católica, seguir doutrinas erradas e levar uma vida que lhe causava profunda preocupação. Mas não desistiu.
Suas lágrimas tornaram-se uma espécie de oração contínua.
A tradição cristã vê em Santa Mônica um exemplo extraordinário da força da oração perseverante de uma mãe.
Agostinho, já adulto, chegou a considerar-se distante demais da Igreja. Mas a graça de Deus trabalhava silenciosamente.
E Santa Mônica continuava pedindo.
A busca pela Verdade
Agostinho tornou-se um brilhante professor de retórica. Passou por diferentes cidades e finalmente chegou a Milão, onde sua vida tomaria um rumo decisivo.
Ali conheceu o grande bispo Santo Ambrósio de Milão.
Inicialmente, Agostinho aproximou-se de Ambrósio principalmente por causa de sua eloquência. Queria ouvir aquele famoso pregador e descobrir se sua maneira de interpretar as Escrituras poderia responder às suas dificuldades.
Mas, pouco a pouco, começou a compreender que a fé católica era muito mais profunda do que ele imaginava.
Aquilo que antes parecia simples ou inadequado aos olhos de sua inteligência começou a revelar uma profundidade extraordinária.
Sua inteligência estava sendo preparada para receber a fé.
Mas ainda faltava algo.
Faltava sua vontade.
O grande combate interior
Agostinho sabia que deveria mudar de vida.
Mas tinha medo de abandonar completamente seus antigos hábitos.
Nas Confissões, ele descreve esse momento de maneira extraordinariamente humana. Ele desejava entregar-se a Deus, mas sentia dentro de si uma resistência.
Ele mesmo conta que dizia:
“Amanhã, amanhã.”
E assim adiava a conversão.
Quantas almas podem reconhecer-se nessa atitude?
Sabem que precisam mudar.
Sabem que precisam abandonar determinado pecado.
Sabem que precisam voltar para Deus.
Mas dizem:
“Depois.”
Agostinho descobriu que esse “depois” pode se transformar em anos.
E foi justamente nesse momento que a graça o alcançou de maneira decisiva.
“Toma e lê”
Certo dia, Agostinho encontrava-se em profunda angústia interior.
Ele havia chegado a um ponto em que já não conseguia continuar vivendo dividido entre o desejo de Deus e a escravidão de suas paixões.
Então ouviu uma voz semelhante à de uma criança que dizia:
“Toma e lê; toma e lê.”
Agostinho entendeu aquilo como um chamado.
Tomou as Escrituras e abriu-as.
Seus olhos encontraram uma passagem da Carta de São Paulo aos Romanos que o exortava a abandonar as obras das trevas e revestir-se do Senhor Jesus Cristo.
Naquele instante, alguma coisa aconteceu em sua alma.
Ele compreendeu que não poderia mais continuar adiando.
A graça que durante tantos anos havia batido à porta de seu coração finalmente encontrou uma resposta.
Agostinho entregou-se a Deus.
A conversão
Sua conversão não significou simplesmente uma mudança de opinião intelectual.
Foi uma mudança de vida.
Aquele homem que havia passado anos procurando a felicidade nas criaturas descobriu a verdadeira felicidade no Criador.
Aquele que desejava a glória humana encontrou uma glória muito maior.
Aquele que procurava a verdade encontrou Cristo, que é a Verdade.
Pouco depois, na Páscoa de 387, Agostinho recebeu o Batismo das mãos de Santo Ambrósio, juntamente com seu filho Adeodato e seu amigo Alípio.
Santa Mônica finalmente contemplava o filho regressar à Igreja.
Pouco tempo depois, ela morreria em Óstia.
Sua missão materna estava cumprida.
O sacerdote e o bispo
Agostinho desejava viver uma vida retirada, dedicada à oração, ao estudo e à busca de Deus. Porém, a Providência tinha outros planos.
Foi ordenado sacerdote e, posteriormente, tornou-se bispo de Hipona.
Aquele homem que durante anos procurara a verdade tornou-se um dos maiores mestres da Igreja.
Pregava, escrevia, defendia a fé católica e combatia os erros de seu tempo.
Sua inteligência extraordinária foi colocada a serviço de Deus.
Seus escritos atravessariam séculos.
Entre suas obras estão Confissões, A Cidade de Deus, A Trindade e numerosos sermões, cartas e tratados.
Mas talvez nenhuma obra revele tanto o coração de Agostinho quanto as Confissões.
“Não saias de ti”
Agostinho descobriu que o homem frequentemente procura fora aquilo que deveria procurar dentro de si, e que, entrando no próprio interior, deve elevar-se até Deus.
Por isso escreveu:
“Não saias de ti; entra em ti mesmo: no homem interior habita a verdade.”
O santo não estava ensinando um simples “olhar para dentro” desligado de Deus. Pelo contrário: para Agostinho, o interior humano só encontra seu verdadeiro sentido quando se volta para o Criador.
A alma humana é grande demais para se satisfazer com as coisas pequenas.
Ela tem sede do infinito.
Um coração conquistado pela graça
A grandeza de Santo Agostinho está também em não esconder de onde veio.
Ele nunca apresentou sua santidade como se tivesse sido sempre perfeito.
Foi pecador.
Errou.
Procurou a felicidade nos lugares errados.
Adiou sua conversão.
Foi intelectualmente brilhante, mas durante muito tempo espiritualmente desorientado.
E justamente por isso sua história é tão magnífica.
Ela mostra que a graça de Deus pode alcançar uma alma mesmo depois de longos anos de afastamento.
Mas também mostra que não devemos abusar da misericórdia divina.
Agostinho demorou para dizer “sim”.
Quando finalmente disse, entregou-se inteiramente.
O legado de Santo Agostinho
Santo Agostinho morreu em 28 de agosto de 430, em Hipona, enquanto a cidade era cercada pelos vândalos.
Sua vida terrena terminou, mas sua voz continuou ecoando.
Séculos depois, ainda lemos suas palavras.
Ainda encontramos sua inteligência.
Ainda reconhecemos suas lutas.
Ainda nos emocionamos com suas lágrimas.
E ainda podemos repetir com ele:
“Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova!”
Santo Agostinho nos ensina que nenhuma criatura pode ocupar o lugar de Deus.
Ensina que a inteligência deve buscar a verdade.
Ensina que a vontade precisa ser ordenada ao bem.
Ensina que o pecado promete liberdade, mas pode transformar-se em escravidão.
Ensina que a graça de Deus é capaz de levantar aquele que caiu.
E, sobretudo, ensina que o coração humano jamais encontrará repouso enquanto estiver afastado de seu Criador.
Uma história para todos nós
A história de Santo Agostinho não pertence apenas ao passado.
Ela fala ao jovem que procura a felicidade nos prazeres.
Fala ao intelectual que procura a verdade sem Deus.
Fala ao pecador que pensa que sua vida já não pode mudar.
Fala à mãe que chora pelo filho.
Fala àquele que vive adiando sua conversão.
Fala àquele que se sente dividido entre aquilo que sabe ser verdadeiro e aquilo que ainda deseja.
E fala também àquele que já encontrou Deus, lembrando-lhe que a vida cristã é uma caminhada contínua de conversão.
Agostinho procurou durante muito tempo.
Mas quando encontrou a Verdade, percebeu que a Verdade já o procurava havia muito mais tempo.
Que Santo Agostinho interceda por nós, para que também saibamos procurar a Deus com sinceridade, abandonar aquilo que nos afasta d'Ele e permitir que a graça transforme completamente nossa vida.
Que nunca tenhamos medo de voltar.
Que nunca digamos que é tarde demais.
E que, em vez de repetir indefinidamente “amanhã”, saibamos responder hoje ao chamado de Deus.
Porque, como o próprio Santo Agostinho descobriu depois de tantos anos de busca, o coração humano só encontra verdadeiro repouso quando finalmente repousa em Deus.
Santo Agostinho de Hipona, rogai por nós!