
Do Reino à República: a transformação política do Brasil no século XIX
A história do Brasil no século XIX não pode ser compreendida apenas pelas datas de 7 de setembro de 1822 e 15 de novembro de 1889. Entre a chegada da Corte portuguesa ao Brasil e a queda da Monarquia, ocorreram profundas transformações políticas, sociais e religiosas.
Em 1808, Dom João, então Príncipe Regente em nome de sua mãe, Dona Maria I, transferiu a Corte portuguesa para o Rio de Janeiro diante da invasão napoleônica de Portugal. Em 1815, o Brasil foi elevado à condição de Reino, formando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Com a morte de Dona Maria I, em 1816, Dom João tornou-se rei como Dom João VI.
A Independência do Brasil, proclamada por Dom Pedro em 7 de setembro de 1822, separou politicamente o Brasil de Portugal e deu origem ao Império do Brasil. É importante, porém, não transformar esse acontecimento numa narrativa simplificada de “libertação”: a Independência ocorreu em meio às correntes políticas e liberais (Maçonaria) do século XIX e a conflitos entre diferentes projetos para a monarquia e para a sociedade brasileira.
Após a abdicação de Dom Pedro I, em 1831, o Brasil atravessou o conturbado Período Regencial. Seu filho, Dom Pedro II, foi declarado maior de idade em 1840 e governou até 1889. Seu longo reinado proporcionou considerável estabilidade institucional e desenvolvimento material e cultural, embora também tenha sido marcado por graves questões políticas e religiosas.
Em Portugal, Dom Miguel, irmão de Dom Pedro I, reinou entre 1828 e 1834 e tornou-se uma das principais figuras da resistência absolutista às transformações liberais que agitavam a Europa portuguesa.
Finalmente, em 15 de novembro de 1889, a Monarquia brasileira não terminou por meio de uma consulta popular: Dom Pedro II foi deposto por um movimento militar, que proclamou a República. A mudança de regime abriu caminho para uma ordem republicana e posteriormente para a separação institucional entre Igreja e Estado.
Assim, tanto 1822 quanto 1889 devem ser estudados criticamente, distinguindo os fatos históricos das interpretações posteriores. Para o católico interessado na história da Cristandade, também é importante observar como o avanço do liberalismo, do secularismo e os conflitos entre Igreja e Estado modificaram profundamente o Brasil ao longo daquele século.
A influência da Maçonaria e do Correio Braziliense na difusão do liberalismo
A transformação política do Brasil no século XIX não ocorreu isoladamente.
As ideias do Iluminismo, do liberalismo e do constitucionalismo circulavam intensamente no mundo luso-brasileiro, e a Maçonaria constituiu uma das redes pelas quais parte dessas ideias alcançou setores influentes da sociedade. Sua presença entre homens da política e das elites brasileiras tornou-se especialmente relevante no período da Independência.
Um importante instrumento dessa circulação intelectual foi o Correio Braziliense, publicado em Londres por Hipólito José da Costa entre 1808 e 1822. Hipólito era maçom, e seu periódico defendia reformas políticas, liberdade de imprensa, constitucionalismo e outras concepções características do liberalismo de sua época. O jornal circulava clandestinamente ou enfrentava restrições no mundo português e exerceu influência no debate político luso-brasileiro.
A ação maçônica também aparece diretamente no ambiente político da Independência. José Bonifácio de Andrada e Silva e o próprio Dom Pedro participaram da Maçonaria, embora as relações entre seus diversos grupos fossem complexas e marcadas por disputas. Portanto, é historicamente defensável afirmar que a Maçonaria teve influência importante na cultura política que cercou a Independência, mas seria inexato reduzir todo o processo de 1822 a uma única organização.
Para o católico, há ainda um julgamento doutrinal que não deve ser omitido. A Igreja já havia condenado formalmente a Maçonaria desde Clemente XII, em 1738. Posteriormente, outros pontífices reiteraram essas condenações. Leão XIII, na encíclica Humanum Genus (1884), denunciou de maneira particularmente contundente os princípios naturalistas associados à Maçonaria e sua tentativa de organizar a sociedade afastando-a dos fundamentos cristãos.
No Brasil, esse choque tornou-se visível de maneira dramática na Questão Religiosa (1872–1875). Os bispos Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira e Dom Antônio de Macedo Costa enfrentaram irmandades religiosas ligadas a maçons e, após desafiarem determinações do poder imperial, foram processados e presos. O episódio mostra que o conflito entre Igreja, Estado e Maçonaria não era simplesmente uma construção posterior.
Assim, do Correio Braziliense aos círculos políticos da Independência e aos conflitos posteriores do Império, a presença maçônica é um elemento real da história brasileira que não deve ser apagado. Para uma leitura católica tradicional, sua importância é ainda mais grave porque muitas das ideias difundidas naquele século — naturalismo, indiferentismo religioso, secularização e certas formas de liberalismo — foram expressamente combatidas pelos Romanos Pontífices.
Isso não significa que todo liberal fosse maçom nem que todos os acontecimentos políticos fossem comandados por uma única sociedade secreta. Significa algo historicamente mais sólido: a Maçonaria participou ativamente do ambiente intelectual e político que contribuiu para transformar a antiga ordem luso-católica, enquanto periódicos como o Correio Braziliense ajudaram a introduzir e popularizar parte do vocabulário político liberal no mundo brasileiro.
"A Maçonaria é o reino de Satanás".
- Papa Leão XIII
Lucas de Oliveira Campos
Rádio Santa Filomena — A serviço da salvação das almas