A Festa de Todos os Santos
No dia 1º de novembro, a Santa Igreja celebra uma de suas festas mais gloriosas: a Festa de Todos os Santos.
Não honramos apenas aqueles santos cujos nomes conhecemos e cujas imagens veneramos nos altares. Celebramos também aquela multidão incontável de almas que, tendo perseverado na graça de Deus, chegaram à Pátria Celeste e contemplam agora a face do Altíssimo.
O Padre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus, pregando sobre esta solenidade no ano de 1643, chamou-a de uma festa verdadeiramente universal. Em suas palavras:
> “A festa mais universal e a festa mais particular” é aquela que a Igreja celebra neste dia.
Vieira recorda que nesta solenidade celebramos Cristo, fonte de toda santidade, a Santíssima Virgem, Rainha de todos os Santos, e juntamente os Anjos, Patriarcas, Profetas, Apóstolos, Mártires, Confessores e Virgens.
Celebramos também aqueles santos que jamais foram conhecidos publicamente sobre a terra, cujos nomes não aparecem nos calendários e talvez nunca tenham sido pronunciados pelos homens, mas que estão escritos no Livro da Vida.
É uma verdade consoladora: o Céu possui muito mais santos do que aqueles que conhecemos pelo nome.
Talvez entre eles estejam nossos antepassados; talvez almas simples que viveram escondidas do mundo, mas conhecidas por Deus; talvez pobres, mães e pais de família, religiosos, sacerdotes, crianças e penitentes cuja santidade permaneceu secreta aos olhos dos homens.
Por isso, a Festa de Todos os Santos não deve ser somente uma celebração daqueles que já venceram. Ela deve despertar em nós um desejo ardente:
**também nós fomos chamados à santidade.**
O próprio Padre Vieira desenvolve seu sermão exatamente sobre essa verdade: primeiro, mostra quão grande coisa é ser santo; depois, recorda que todos somos chamados a sê-lo.
Os homens procuram riquezas, honras, poder, inteligência e reconhecimento. Mas tudo isso passa.
Uma única coisa permanece eternamente: morrer na amizade de Deus.
Que aproveitaria ao homem conquistar o mundo inteiro, receber honras e acumular riquezas, se no final perdesse a própria alma?
Os santos compreenderam aquilo que o mundo frequentemente esquece: fomos criados para Deus.
Uns alcançaram o Céu pelo martírio; outros pela penitência; outros pela virgindade; outros pela vida religiosa; muitos pela fidelidade silenciosa aos deveres cotidianos.
Mas todos tiveram algo em comum: amaram a Deus acima de todas as coisas e perseveraram até o fim.
O Evangelho escolhido por Vieira para seu sermão é a bem-aventurança:
“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.”
(São Mateus 5,8)
E aqui está a finalidade de toda a vida cristã: ver a Deus.
Hoje contemplamos espiritualmente aquela multidão gloriosa que já chegou ao destino para o qual também caminhamos.
Eles combateram as tentações.
Eles sofreram.
Eles choraram.
Eles caíram e levantaram-se.
Eles fizeram penitência.
Eles carregaram suas cruzes.
E agora possuem aquilo que nenhum poder da terra lhes pode tirar: Deus por toda a eternidade.
Portanto, neste dia de Todos os Santos, não nos contentemos apenas em admirar os santos.
Imitemo-los.
Peçamos aos Mártires a fortaleza.
Aos Confessores, a perseverança.
Às Virgens, a pureza.
Aos Doutores, o amor pela verdade.
Aos santos penitentes, verdadeiro arrependimento de nossos pecados.
E sobretudo recorramos àquela que está acima de todos os santos:
Maria Santíssima, Rainha de Todos os Santos.
Que Nossa Senhora obtenha para nós a graça de perseverarmos na verdadeira Fé Católica, vivermos em estado de graça, combatermos o pecado e chegarmos um dia à companhia daquela multidão que hoje celebramos.
Hoje nós celebramos os Santos.
Que, pela misericórdia de Deus, chegue o dia em que também nós estejamos entre eles no Céu.
Regina Sanctorum omnium, ora pro nobis.
Rainha de Todos os Santos, rogai por nós.
Referência
VIEIRA, Padre Antônio. Sermão de Todos os Santos. Pregado em Lisboa, no Convento de Odivelas, no ano de 1643.
Publicado em: Sermões do Padre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus, Pregador de Sua Majestade — Quarta Parte. Lisboa: Oficina de Miguel Deslandes, 1685.
Tema do sermão: “Beati mundo corde” — “Bem-aventurados os puros de coração” (Mt 5,8).